O mercado de Pet Care no Brasil atingiu um patamar histórico, movimentando cerca de R$64 bilhões em 2024. Esse crescimento não é apenas quantitativo; ele reflete uma mudança qualitativa na relação entre tutores e animais, que hoje são considerados membros da família. No entanto, essa "humanização" dos pets traz à tona um desafio clínico crítico: a medicina veterinária está enfrentando uma crise de diagnósticos inconclusivos e infecções por bactérias multirresistentes, como MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina) e MRSP (Staphylococcus pseudintermedius resistente à meticilina), além de Gram-negativos resistentes a carbapenêmicos.
Quando o cultivo tradicional falha, veterinários e tutores ficam reféns de tratamentos empíricos de "tentativa e erro". A Microbiotec surge neste cenário para romper esse ciclo com duas ferramentas moleculares complementares: o qPCR, que entrega identificação e quantificação de patógenos específicos em 48 horas, e o NGS, que sequencia tudo o que há na amostra quando não se sabe o que procurar.
O Limite do Visível: Por que a Microbiologia Clássica Falha com Pets?
A microbiologia clássica, baseada no cultivo em placas de ágar, foi o padrão ouro por mais de um século. Contudo, ela possui "pontos cegos" biológicos intransponíveis para as demandas da clínica veterinária moderna.
1. Patógenos Não-Cultiváveis e Fastidiosos
Muitos dos patógenos que causam infecções graves em cães e gatos, como Mycoplasma spp., Ureaplasma spp. e diversas bactérias anaeróbias, são extremamente exigentes. Elas requerem meios de cultura específicos ou simplesmente não crescem em laboratório (estado VBNC — Viáveis mas Não Cultiváveis). Um laudo de "cultura negativa" em um pet com sintomas claros de infecção não significa ausência de patógeno; significa, muitas vezes, falha do método. Em amostras de abscessos de pets, por exemplo, o cultivo convencional identificou bactérias em 9 de 20 amostras, enquanto a PCR de amplo espectro detectou DNA bacteriano em 17 — revelando anaeróbios obrigatórios que o cultivo não recuperou (Duangurai et al., 2019).
2. O Viés do Tratamento Prévio
Na prática veterinária, é comum que o pet chegue ao laboratório já tendo recebido doses prévias de antibióticos. Isso inibe o crescimento bacteriano no cultivo tradicional, gerando resultados falso-negativos, mas não impede a detecção do DNA bacteriano via qPCR.
3. O Tempo da Emergência
A identificação por cultivo leva de 3 a 7 dias. Para um animal com sepse ou pneumonia grave, esse tempo é a diferença entre a vida e o óbito. Quando o agente suspeito já é conhecido, o qPCR da Microbiotec entrega a resposta completa — identificação e quantificação absoluta da carga — em 48 horas.
qPCR e NGS: Duas Perguntas Diferentes
O erro mais comum é tratar diagnóstico molecular como uma coisa só. São duas tecnologias que respondem a perguntas distintas, e escolher a certa é o que define o valor clínico do exame.
qPCR — "esse patógeno específico está aqui, e em que quantidade?" A técnica é baseada na amplificação de um segmento conhecido do genoma do patógeno. Isso significa que é preciso saber de antemão o que se está procurando: o exame é direcionado a alvos definidos. Em troca, entrega altíssima sensibilidade, quantificação absoluta da carga e resultado em 48 a 72 horas.
NGS — "o que existe nesta amostra?" O sequenciamento de nova geração não escolhe alvos: ele sequencia tudo o que há na amostra. É a ferramenta indicada quando não se sabe nada sobre o patógeno, quando o cultivo não foi possível ou quando os exames direcionados vieram negativos e o quadro clínico persiste. Em contrapartida, fornece quantificação relativa (não absoluta) e exige um prazo consideravelmente maior, pois parte do processo é realizada em plataformas especializadas no exterior.
Em resumo: o qPCR é rápido e preciso quando há hipótese diagnóstica; o NGS é abrangente e investigativo quando a hipótese acabou.
Quando Indicar Cada Exame
Na rotina clínica, a decisão costuma ser direta.
Indique qPCR quando:
- Há suspeita clínica definida de um ou mais agentes específicos.
- O caso é urgente e a conduta terapêutica depende de uma resposta em dias, não semanas.
- É necessário quantificar a carga do patógeno para avaliar gravidade ou acompanhar a resposta ao tratamento.
- O animal já recebeu antibiótico e o cultivo tende ao falso-negativo.
Indique NGS quando:
- Os cultivos vieram negativos e os exames direcionados também, mas o quadro clínico persiste.
- Não há hipótese sobre qual agente procurar.
- Há suspeita de agente fastidioso, não-cultivável ou incomum.
- O objetivo é investigar a comunidade microbiana como um todo, incluindo triagem de genes de resistência.
As duas abordagens também se somam: é comum iniciar pelo qPCR para descartar rapidamente os suspeitos mais prováveis e, permanecendo a dúvida, escalar para o NGS.
NGS: Varredura Metagenômica Quando o Patógeno é Desconhecido
Identificação Pan-Bacteriana e Fúngica
Através do sequenciamento dos genes 16S rRNA (bactérias) e ITS (fungos), é possível identificar os microrganismos presentes em uma amostra de sangue, urina, swab de ferida ou líquido sinovial. O NGS não "escolhe" o que procurar; ele mapeia o que está presente na amostra. Estudos com abordagem metagenômica em cães, gatos e aves demonstraram justamente essa vantagem em organismos de difícil cultivo e em coinfecções (Shao et al., 2026).
Perfil de Resistência Molecular
O NGS permite identificar genes de resistência (ARGs) a partir do material genético sequenciado. Em vez de depender do crescimento da bactéria para testar antibióticos (antibiograma fenotípico), lê-se o genoma bacteriano em busca de genes como mecA, blaNDM-1 ou vanA. Isso oferece ao veterinário um indicativo valioso sobre quais antibióticos tendem a ser ineficazes — especialmente nos casos em que o agente sequer cresce em cultivo.
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Perguntas Frequentes sobre Diagnóstico Molecular em Pets
1. O NGS substitui o antibiograma tradicional na veterinária?
Eles são complementares. O antibiograma testa a sobrevivência da bactéria diante do fármaco, mas depende de um microrganismo que cresça em cultivo. O NGS identifica os genes associados à resistência mesmo quando não há crescimento, o que o torna a alternativa viável justamente nos casos em que o antibiograma não é possível. Vale a ressalva: a presença de um gene não significa que o microrganismo será de fato resistente ao antibiótico — é um indicativo, pois ainda é preciso avaliar a funcionalidade do gene encontrado.
2. Quais amostras podem ser enviadas para sequenciamento?
Praticamente qualquer amostra biológica: sangue total, urina (coletada preferencialmente por cistocentese), líquor, líquido sinovial, swabs de tecidos profundos e biópsias.
3. O diagnóstico por qPCR ou NGS é muito mais caro que o cultivo?
O valor nominal do diagnóstico molecular é superior, porém o custo-benefício é melhor. Um diagnóstico molecular evita múltiplos cultivos negativos, reduz o tempo de internação e impede a compra de antibióticos caros que seriam ineficazes, gerando economia real no custo total do tratamento.
4. Como o NGS ajuda no controle de infecções hospitalares veterinárias?
O NGS permite realizar o "mapeamento genético" da clínica ou hospital. É possível identificar se os animais estão sendo infectados pela mesma cepa bacteriana, ajudando a apontar falhas de protocolo de higienização e a prevenir surtos.
5. Qual o prazo de entrega dos laudos da Microbiotec?
Para diagnósticos urgentes, trabalhamos com o protocolo de 48 a 72 horas para qPCR a partir do recebimento da amostra no laboratório. Já o NGS requer entre 30 e 45 dias, incluindo a identificação da espécie e o screening de genes de resistência.
Conclusão: Medicina Veterinária de Precisão
O futuro da veterinária é molecular. A dependência exclusiva de métodos de cultivo lentos e falhos não condiz com a importância que os animais possuem na sociedade atual. A Microbiotec provê ao médico veterinário as ferramentas para encerrar o ciclo do tratamento empírico: o qPCR para responder rápido quando há hipótese, e o NGS para enxergar o que nenhum cultivo revela quando a hipótese falta.
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Referências Bibliográficas
- Shao D, Li Y, Chen S, et al. Improved RNA-based metagenomic sequencing for rapid pathogen detection in pets. BMC Veterinary Research. 2026;22:118. doi:10.1186/s12917-025-05174-0
- Cai HY, Caswell JL, Prescott JF. Nonculture molecular techniques for diagnosis of bacterial disease in animals: a diagnostic laboratory perspective. Veterinary Pathology. 2014;51(2):341-350. doi:10.1177/0300985813511132
- Duangurai T, Siengsanan-Lamont J, Bumrungpun C, et al. Identification of uncultured bacteria from abscesses of exotic pet animals using broad-range nested 16S rRNA polymerase chain reaction and Sanger sequencing. Veterinary World. 2019;12(10):1546-1553. doi:10.14202/vetworld.2019.1546-1553
- Monteiro HIG, Silva V, de Sousa T, et al. Antimicrobial Resistance in European Companion Animals Practice: A One Health Approach. Animals (Basel). 2025;15(12):1708. doi:10.3390/ani15121708
- Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI). VET01: Performance Standards for Antimicrobial Disk and Dilution Susceptibility Tests for Bacteria Isolated From Animals. 6th ed.; suplemento VET01S, 7th ed., 2024.

